14 dezembro 2011

Palavras sentidas

Não sei se deveria pedir desculpa por escarrapachar aqui no blogue um texto tão pessoal. Primeiro porque não é a primeira vez que o faço, depois porque alguns de vocês até gostam, terceiro... porque o blogue é meu! Ahahaha!

O texto que me proponho a escrever não me resulta nada fácil porque não sei por onde começar. Um relato cronológico fica maçador e desprovisto de interesse (pelo menos, de interesse inicial) mas ao mesmo tempo dá sentido à história, que ninguém conhece. Seja como for, decidi começar pelo fim:


O meu amor pela minha mãe não nasceu comigo, cresceu com o tempo.

Há crianças que sempre foram agarradas à mãe. Eu não. Aliás, acho que nunca fui agarrada a ninguém, pelo menos não com aquela dependência emocional que as crianças costumam ter. Gostava das pessoas mas não as queria atrás de mim só que ao contrario da minha irmã, que era capaz de mandá-las dar uma volta sem poupar palavras, eu não conseguia. Muito tímida, muito sensível, não queria magoar ninguém como não queria que me magoassem a mim pelo que sempre me conheci a tentar manter o meu espaço desimpedido sem ferir quem tentasse entrar nele. Este conflito foi dos maiores pesos com que cresci. Um peso imposto por mim mas provocado pelos outros.

Sou a cara chapada do meu pai e também lhe tomei a maneira de ser. Falávamos pouco mas eu sabia que ele me entendia na perfeição e por isso sentia nele a presença do meu porto seguro. A M. saiu igual à minha mãe pelo que se tivéssemos de fazer equipas por afinidade seriamos, a M. agarrada (muito agarrada) à mãe e eu ao pai. Só que o meu pai (como quase todos os pais) quase nunca estava pelo que o meu porto seguro, era mais como uma pequena jangada no meio do Atlântico debaixo de uma grande tempestade. 

Se me pedissem para descrever a minha infância em poucas linhas a primeira imagem que me vem à cabeça será: eu e a minha irmã em casa com a minha mãe e a D. Alice. Cresci numa casa linda, cheirosa, iluminada, alegre e pacifica graças à presença destas 3 mulheres maravilhosas que o tornavam possível. Mas faltava-me o meu pai. Hoje sei que disso mas na altura não era consciente. Apenas tinha um sentimento de "falta algo", embora tivesse tudo.

A minha irmã tinha um carácter mais forte mas era muito dependente da minha mãe e da D. Alice. Eu assumi o meu papel de irmã mais velha e adulta como sempre fui, prescindi dessa atenção extra que podia ter pedido e fingi que não precisava de mais nada... mas a minha mãe sabia que sim. Se calhar não sabia o que era (como eu também não) mas sentia-me frágil nalgum ponto. Uma pessoa frágil que luta afincadamente para manter as pessoas longe... not easy!

Nunca me pressionou. Manteve-se por perto sem nunca dar muito nas vistas, mas esteve lá. Sempre. Nunca me pediu que mostrasse que gostasse dela (beijos, abraços e declarações amorosas nunca fizeram parte dos meus actos), limitou-se a deixar-me ser eu, a testar-me a mim própria, a apanhar os cacos quando caia, as neuras quando doíam e a dar-me toques subtis para onde achava que eu seria feliz. E conseguiu. Quando cheguei à adolescência, em lugar de fugir das mães como fazem a maioria dos adolescentes, eu aproximei-me da minha. Aos poucos, eu ia abrindo a porta e aos poucos a minha mãe entrava. Adorei ter tido o seu apoio em todas as dúvidas do universo feminino que me assaltaram sem aviso, e ter podido partilhar com ela todos os momentos de incertezas. Não podia ter arranjado melhor pessoa em quem confiar. Os conselhos sábios e sinceros de alguém que, não tendo o mesmo carácter que eu, sentia-me a alma...

Agradeço-lhe o "saber fazer". O nunca se ter afastado mas tambén nunca se ter impingido. Ter sabido manter o equilíbrio entre o que eu queria e o que eu precisava, o que eu podia escolher e o que eu tinha de aceitar (Sim, não pensem que dizer: "Ai sou muito independente, deixe-me em paz" funcionava lá em casa. Família é família minha menina e é assim que funcionamos por aqui, papas ou sim ou sim e pronto! E já viram como me tornei...continuo independente mas não os largo de todo.)

Este texto é portanto uma homenagem a uma mulher que assumiu o seu papel de mãe na perfeição e dedicou-se a ele. Claro que agora muitas pessoas dizem que ela teve sorte com os filhos que teve... muito calmos e atinados. Não foi só sorte. Foi dedicação, trabalho e o resto é conversa mas isso sabemos só nós, não é mamã?


Obrigada mãe, por ter sabido ser minha mãe.

Beijo,

Filha.


PS: Este post, não podia calhar em melhor altura...

9 comentários:

Mafalda disse...

Que bonito texto! adorei =)
Beijinhos

I. disse...

adoro o carinho que tens pela tu mãe.... N conheço o s O. N sei se és ou nao a sua cara chapada... Mas herdaste a classe da mãe ;) beijinhos xuxu****

Raven disse...

"Uma pessoa frágil que luta afincadamente, para manter as pessoas longe... not easy!"
Bolas, que esta frase descreve-me tão bem ;)

Tralha do Melhor. disse...

muito bonito

mae disse...

Obrigada minha filha ,que previlegio poder ser tua Mae ! Amo-te muito....beijinho

Tanita disse...

Lindo, lindo. Se o meu filho um dia me escreve uma destas linhas desfaço-me em lágrimas e tenho a certeza que o meu papel foi cumprido. Bj**

Este Blogue precisa de um nome disse...

Adorava que um dia a MC me escrevesse um texto destes... vai ser difícil! É que eu passo o dia a pedir beijos e a dá-los :)

Só sedas disse...

Minha gente, muito obrigada pelas vossas palavras.

Rita, Todas as pessoas são diferentes e a MC pode muito bem escrever-te o mesmo embora lhe peças abraços... eu é que não gostava! Dai eu terminar dizendo "por saber ser minha mãe" porque todas as pessoas precisam de coisas diferentes, o truque está em saber identificá-lo e dar-lho.

Beijinho

Isabel disse...

Que orgulho e felicidade para a mamã!
Mary, o texto está maravilhoso e ninguém o sentiu mais do que a tua mãe.
Parabéns à filha, pela escrita, e à mãe, que só pode ser muito especial (como todas as mães, aliás!).